Sem vagas para juniores, quem forma os líderes de amanhã? O dilema das empresas na era da IA

As vagas para juniores na era da IA estão no centro de um dilema empresarial: reduzir contratações de entrada pode comprometer a formação de futuras lideranças. A questão foi discutida em um debate promovido pela InHire.

Um estudo do Stanford Digital Economy Lab, baseado em registros de folha de pagamento nos Estados Unidos, identificou uma redução no emprego de jovens em ocupações mais expostas à inteligência artificial generativa. A queda se concentra em funções nas quais a tecnologia substitui tarefas.

Em debate da InHire, Lívia Kuga, cofundadora da Alia, David Pires, CIO e CPO da Zig, e Augusto Frazão, CEO da InHire, discutiram o espaço dos profissionais em início de carreira. A reportagem foi publicada em 19 de outubro de 2026.

vagas para juniores na era da IA

Frazão também apontou diferenças entre as competências exigidas pelas funções e o modo como algumas seleções são conduzidas. A discussão envolve tanto a formação de talentos nas empresas quanto a avaliação de candidatos para trabalhos transformados pela IA.

O espaço dos profissionais juniores e a formação de futuras lideranças

Lívia Kuga, cofundadora da Alia, considera um erro interromper a contratação de talentos em formação. Para ela, a falta de experiência pode ser uma vantagem: profissionais mais novos ainda não desenvolveram hábitos de trabalho que dificultem a adoção de processos estruturados desde o início para incorporar inteligência artificial.

“As pessoas mais novas não têm vícios ainda. E eu acho isso muito positivo”, afirmou Kuga. A executiva também avaliou que deixar de formar talentos teria consequências para além das empresas, alcançando a sociedade.

Na discussão sobre vagas para juniores na era da IA, a perspectiva de Kuga contrasta com a preferência por profissionais já experientes. Em sua avaliação, manter a formação de quem está começando é parte da resposta das empresas às mudanças nas formas de trabalhar com a tecnologia.

Como a IA muda o trabalho e o que a seleção precisa avaliar

Nas carreiras técnicas, a transformação é visível na rotina de desenvolvimento de software. O perfil concentrado em escrever e corrigir código perdeu espaço à medida que essas etapas foram automatizadas; a atuação passou a exigir orientação a produto, visão de negócio, coordenação de ferramentas e contato com clientes.

Augusto Frazão, CEO da InHire, descreveu a mudança como uma passagem da execução em volume para competências de julgamento, orquestração e relacionamento. David Pires, CIO e CPO da Zig e programador há anos, contou que deixou de escrever código pessoalmente e passou a coordenar o trabalho das ferramentas.

Pires relatou ter colocado “mais de 10, 20 coisas” em produção enquanto participava de reuniões e realizava outras atividades. Já no recrutamento, Frazão observou que muitas empresas adotaram IA em etapas da seleção sem atualizar, na mesma medida, as descrições dos cargos.

O descompasso aparece também em testes práticos: segundo Frazão, há seleções que proíbem o uso de IA mesmo para funções em que os profissionais terão de trabalhar com essas ferramentas. “A gente está contratando para o emprego de 2024 e cobrando o de 2026”, disse o CEO, que acrescentou que equipes contratadas sob premissas operacionais antigas exigem requalificação interna.

Para Frazão, a definição do cargo deve anteceder a abertura da vaga e orientar o que será avaliado no processo seletivo. Ele propôs que gestores perguntem: “O que essa pessoa vai fazer que um agente não faz e como é que a nossa seleção vai testar isso?”